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Parte II - O CONTO DO TANOEIRO

CONTOS GASPARENSES
Parte II - O CONTO DO TANOEIRO 
Texto completo (imagens ilustrativas)


A história aqui apresentada (e também os textos do QR CODE na página 2) baseia-se nas memórias de Henrique Pedro Zimmermann, ilustre gasparense nascido a 31 de março de 1900. Depois de completar os estudos em Gaspar, Blumenau e Florianópolis, exerceu diversas funções públicas, como na Embaixada Brasileira em Montevidéu e na Secretaria da Fazenda de Santa Catarina. Foi professor e lecionou o idioma alemão na Universidade do Paraná, entre outras atividades. Trabalhou no Consulado Alemão em Curitiba e foi um dos redatores do jornal “Der Kompass”. Henrique Pedro Zimmermann registrou ao longo dos anos suas memórias, e muitas delas remetem ao seu tempo de infância, fase da vida em que viveu em Gaspar.

O Conto do Tanoeiro está ligado à história da mineração em Gaspar. A busca por ouro na região remonta ao século 19, porém sem grandes descobertas além das atividades de garimpeiros isolados. A atividade de exploração desse minério ganhou força ao longo da década de 1940, quando centenas de trabalhadores exploravam a região do Arraial. Nos anos de 1970 e 1990 novas empresas passaram a realizar a exploração do ouro na localidade, que ao longo de suas atividades retiraram boa quantidade do cobiçado minério. O desejo de encontrar ouro gerou muitas histórias curiosas, como a do Conto do Tanoeiro que passaram a enriquecer a cultura popular da cidade.


Dizia-se, que em Gaspar se encontrariam ricas ocorrências de ferro. Creio que Gaspar, neste particular não é exceção, uma vez que é sabido, que toda a área da serra do mar acusa ocorrência de minério de ferro em maior e menor quantidade.
O ouro sempre foi e continua sendo a grande sedução do homem. Em torno dele giram histórias e fatos, acontecimentos felizes e trágicos. E não vezes ele tem mudado o curso de vida de indivíduos e de povos.

O acontecimento que será apresentado a seguir é fruto de uma crônica popular que por muitos anos divertiu a comunidade.
Vizinho destas terras, foi um pequeno sitiante, um desses tipos espertos, de andar ligeiro e costumes característicos dos nossos praieiros. Era ele um misto de sagaz e astuto, de ingênuo e manhoso, que gostava de conversa e sempre “sabia muita coisa”. 


Quase que diariamente vinha a cidade, à tarde, para inteirar-se das novidades. Fumava seu cigarrinho de palha e contava suas histórias de pescaria e de caçadas de arrepiar os cabelos dos que ouviam. Seu ponto predileto sempre foi a oficina de um tanoeiro que trabalhava para uma firma exportadora de aguardente. Este era o tipo do gozador e gostava de incitar o homenzinho para que contasse as suas histórias, animando-o a enfeitá-las sempre mais com fatos inéditos. Ao grupo costumava juntar-se o farmacêutico que viera do Rio de Janeiro e estabelecera-se em Gaspar. Era ele, também um desses homens que gostava de divertir-se à custa dos outros, se bem que o fazia com ares muito sério e dificilmente traía as suas intenções de divertir-se com o que ouvia; ao contrário, com a cara mais séria do mundo, reforçava as fantásticas narrativas do sitiante, acrescentava-lhes fatos ainda mais espantosos. 


Certo dia, o tanoeiro e o farmacêutico combinaram pregar uma peça ao visitante.. Confabularam e quando o homenzinho chegou à oficina do tanoeiro, este lhe disse que  soubera que o farmacêutico estaria interessado em comprar seu sítio para um grupo de americanos, que sabiam que nele havia ouro em abundância. Pediu que nada contasse ao farmacêutico do que lhe estava dizendo, porque aquele lhe havia pedido segredo. O sitiante logo ardeu de cobiça e pediu ao tanoeiro que procurasse saber algo de mais positivo sore o negócio e que, se este se realizasse, ele lhe daria uma boa comissão. Diariamente voltava à oficina e punha-se a escutar as conversas do farmacêutico. Este, de vez em quando, deixava escapar uma frase alusiva ao suposto negócio, sem porém, expressar-se claramente e procurando ocultar do sitiante, o que pretendia contar ao tanoeiro. “Os americanos escreveram-me novamente...” dizia ao tanoeiro. “Recebi notícias dos homens..., querem que eu apresse o negócio...”. Depois dirigia-se ao sitiante,, com ares de quem nada queria, e perguntava: Você estaria disposto a vender o seu sítio?’ ao que o outro matreiramente respondia: “Depende da oferta...”. O farmacêutico mostrava-se aparentemente desinteressado, mas deixava sutilmente transparecer, que amigos dele queriam comprar a propriedade do sitiante, para nela plantar cana-de-açúcar. Depois retirava-se e o tanoeiro dizia ao sitiante: não lhe disse? Ele quer comprar seu sítio para os americanos, porque nele existe muito ouro... Os americanos são homens de muito dinheiro”.

Nestas conversas passaram-se algumas semanas, até que um dia o tanoeiro disse ao sitiante: “Quando você está presente o farmacêutico não se abre. Só o faz quando está a sós comigo. Amanhã volte mais cedo e deite-se naquela tábua, debaixo do telhado, por cima de minha bancada de trabalho. Ali, escondido, você poderá ouvir tudo o que ele me diz. Quando o sitiante se retirou, informou ao farmacêutico da combinação que fizera com o mesmo. Logo depois do meio dia, no dia seguinte, o sitiante apareceu e deitou-se sobre a tábua debaixo do telhado da oficina. Fazia um calor horrível, mas atentando às recomendações do tanoeiro, conservou-se imóvel e calado.

Não demorou, chegou o farmacêutico e foi logo dizendo ao tanoeiro: “Vou fazer o negócio da compra do sítio do fulano, mas quero compra-lo barato para ganhar bastante na venda aos americanos. Lá existe muito ouro e os americanos pagam qualquer preço”. E, assim, foi falando umas duas horas, enquanto o sitiante sofria com o calor debaixo do telhado, mas sempre atento ao que falavam. Suando em bicas, ele desceu de seu esconderijo quando o farmacêutico se retirou da oficina, porém, bastante satisfeito com o que havia escutado. Apenas estava desgostoso por “ouvir as intenções do safado que quer enriquecer à minha custa”. No dia seguinte, o farmacêutico o interpelou diretamente: “Você quer vender seu sítio? Qual o preço que pede por ele? Eu posso comprá-lo à vista”. Lembrando o que ouvira no dia anterior, o sitiante pediu um preço exorbitantemente elevado. Daí em diante, dia por dia, teve lugar uma pechincha das arábias. Um pedindo muito, o outro oferecendo pouco, até que certo dia o farmacêutico, mostrando-se bastante aborrecido apareceu na oficina e foi logo dizendo ao tanoeiro que os homens haviam desistido do negócio. E foi andando.... O sitiante pareceu petrificado com a notícia de que não mais venderia seu sítio e o tanoeiro lhe disse: “Veja que negócio você perdeu; é que você pediu um preço muito elevado”. O sitiante começou a vociferar contra o farmacêutico, atribuindo a este o malogro do negócio, e daí por diante, quando vinha à cidade, só entrava na oficina do tanoeiro, depois de ter-se certificado de que lá não estava o farmacêutico. Mas a cidade toda já ficara sabendo do negócio e assim a crônica jocosa de Gaspar ficou acrescida de mais um elemento que durante anos era lembrado quando os gaiatos se reuniam para passar algumas horas alegres.

Fonte: Memórias de Henrique Pedro Zimmermann – In: Memória Gasparense, número 4; Abril de 1995.



Pesquisas: Robson Gallassini (in memoriam).

MATERIAL NÃO PEDAGÓGICO.
APENAS DE ENTRETENIMENTO.
Os quadrinhos são meramente ilustrativos.
Para realizar pesquisas, consulte o ARQUIVO HISTÓRICO MUNICIPAL, ACESSANDO O LINK ABAIXO:

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