Em março de 2026 ocorreu o lançamento do livro:"Imaginário Literário", com contos e narrativas de cada autor sobre alguma de suas memórias referentes à cidade de Brusque. A obra contém generosas 200 páginas de boa leitura produzida por 11 autores.
Meu tema publicado foi o "Choque Cultural", remetendo à minha infância, no início dos anos 1980, dividida entre o agito de Curitiba e a tranquilidade brusquense.
Para quem não garantiu o exemplar desta obra literária e quiser conhecer o conto que se refere às minhas lembranças, segue aqui abaixo:
CHOQUE CULTURAL
Aldo Maes dos Anjos*
*Titular da cadeira nº 19 na ALB-Brusque.
Em meados dos anos 1980, um menino ia passando apressadamente pela calçada semi deserta da Rua Riachuelo, no centro de Curitiba, sempre olhando para trás. O jovem não conseguia sequer imaginar a possibilidade de estar sendo seguido em uma região tão despovoada. Se tivesse alguém vindo atrás, caminhando na mesma direção e na mesma velocidade que ele, já entraria em pânico. Viver numa cidade grande tem dessas coisas. Com apenas dez anos de vida e já havia sido assaltado duas vezes. Das outras vezes levaram um pouquinho de dinheiro, mas aquele pouquinho seria o suficiente para uma alegria instantânea que poderia ter sido desfrutada: uns passaportes para uma volta na montanha russa e na estrela, os seus brinquedos favoritos no Parque de Diversões “Alvorada” (ao lado do Shopping Müller) e, quem sabe, ainda sobraria um trocado pra devorar um sorvete de pistache na sorveteria que ficava bem no caminho de volta. Ficou tudo na mão de jovens assaltantes com seus canivetes. É a lei da selva de concreto.
Só que dessa vez era diferente. O menino tinha acabado de ganhar de presente de aniversário o seu maior sonho de consumo: um relógio com calculadora, e não poderia entregar tão facilmente assim o adorno que sempre sonhou em ostentar no braço para ajudar nas aulas de matemática. Foram anos olhando pro pulso vazio e sonhando com o dia em que teria um desses equipamentos tão modernos envolvendo o seu pulso, em uma época ainda distante da telefonia móvel. Se o sujeito que estava lhe seguindo o alcançasse e roubasse o seu relógio, ia ter que voltar para o tempo do lápis com tabuada... Que retrocesso! Então, deu mais uma espiada discreta para trás e o indivíduo ainda estava no seu encalço. Acelerou o passo e espiou de novo. Pois o seu perseguidor acelerou, também. A solução foi mesmo correr desesperado e nem olhar mais para trás. Simplesmente deu um sprint até chegar ofegante na portaria do prédio em que morava, na gentil companhia do seu Waldemar, o prestativo zelador. Olhou para o braço, constatou que o seu tão desejado relógio ainda estava ali, realizando o seu interminável rodízio numérico, e respirou aliviado, pois essa batalha havia sido ganha.
Mas até quando ia persistir nessa forma tão atlética de se manter um aparelho eletrônico incomum no braço, servindo de isca pra assaltante? Deixar em casa é que ele não iria, pois ganhou este presente foi pra ficar no pulso e informar as horas onde quer que ele estivesse, e não para ficar guardado numa gaveta. Era um risco que precisava ser mantido. Enquanto esperava o elevador, olhou para o calendário do relógio, percebeu que as férias escolares estavam se aproximando, e abriu um largo sorriso de quem sabia que os dias de tensão iriam terminar, pelo menos por um lapso de tempo. Entrou no elevador sozinho e ficou pensando em todas as coisas legais que iriam acontecer nos dias em que passaria na casa dos avós, em Brusque.
E chegou o glorioso dia do fusquinha azul pegar a estrada e descer para BQ. A única coisa que afetou a tranquilidade da viagem foi a imensa ansiedade do garotinho em chegar logo, perguntando ora se “já chegamos em Brusque?”, ora se “falta muito pra chegar?”. E enfim, após quatro intermináveis horas, a viagem atingiu o seu destino: a casa dos avós maternos, onde a paz reinava pelas ruas da pacata cidade catarinense de cerca de 50.000 habitantes. Finalmente daria pra andar pelas calçadas, sem precisar se preocupar com quem estava vindo logo atrás. Aqui a palavra “tranquilidade” possuía o seu verdadeiro sentido. A maioria das férias escolares da sua vida, tanto de julho como de dezembro haviam sido passadas na cidade catarinense de sotaque puxado, com cheirinho de cuca e linguiça defumada, onde residiam os seus avós, sendo estes os momentos mais felizes já conhecidos até então, em sua curta existência. Era uma casa simples, mas aconchegante, com colchão de mola pra pular, comida feita pela vovó no fogão a lenha, cheirinho de café à tarde, e, de noitinha, a casa era defumada com uma fumaça horrível vindo do “Boa Noite” um inseticida comum daquela época, em forma de espiral verde, que ia queimando lentamente espantando os insetos e atormentando os humanos.
O menino lembrou por um instante do choque cultural que recebeu ao perceber como era viver em paz. Isso aconteceu certa vez, em outro recesso escolar passado no Vale do Itajaí-Mirim, ao ir à padaria buscar pão para o café da tarde. Na companhia do seu tio, ia saindo pela varanda, deixando a porta da frente simplesmente aberta, com a TV ligada e a casa totalmente desguarnecida. “Mas como assim, tio? Não tem amor pelo seu patrimônio? Como pode sair de casa e deixar tudo aberto?”, o irmão mais novo da sua mãe sorriu e acalmou o sobrinho assustado, dizendo que agora ele estava em Brusque e que aqui não precisava se preocupar com roubos. Mas que sonho!!
Foram de carro até à padaria, num tempo em que todas as ruas eram de mão dupla, com raras sinaleiras e o minguado trânsito fluía maravilhosamente bem. Chegando lá, a paranoia se repetiu. “Onde já se viu deixar o carro com a porta aberta e um toca-fitas bonito ali à disposição e ainda por cima ligado, pra chamar mais a atenção?” Para o menino de cidade grande aquilo parecia uma completa falta de juízo. Mas a paz era um prato novo que ele estava aprendendo a degustar. Que coisa boa. Poder andar pelas ruas livremente, sem o risco de alguém te ameaçar e depois levar os seus pertences. É praticamente um universo paralelo que ele ainda desconhecia. Queria ficar por ali mesmo naquela pacata cidade para sempre, e nunca mais precisar conviver com a rotineira desconfiança vivida em alguns trajetos curitibanos com menor circulação de pessoas. Quem sabe, em algum dia, a gente ainda venha morar neste município tão maravilhoso e tranquilo... pensava a criança, esperançosa.
Com o passar dos anos, o menino foi estabelecendo uma amizade periódica com as crianças que moravam na mesma rua, e até em ruas próximas, com os primos catarinenses e de outros estados, que também apareciam de férias por essas bandas, gerando momentos inesquecíveis, tornando a cidade de Brusque um lugar onde a vida ganhava novas cores, sempre acrescentando boas lembranças na memória.
Entre todos os choques culturais que a enorme diferença entre as duas cidades apresentava, o maior deles foi mesmo a receptividade e o afeto recebidos dos brusquenses. Enquanto a capital paranaense possuía uma maior frieza, não somente climática, na atmosfera, como também nas relações entre as pessoas, a cidade catarinense na qual residiam os seus avós, devido a sua população relativamente pequena, possuía uma facilidade maior em estabelecer vínculos uns com os outros. Parecia incrível, mas todo mundo ali se conhecia bem.
Em todas as casas que visitou, o menino foi bem recebido, e já no dia seguinte estava sendo chamado pelo nome pelos até então desconhecidos, como se fossem velhos amigos, desenvolvendo rapidamente fortes laços de amizade com todos os seus residentes. Era definitivamente uma realidade paralela, se comparada à capital paranaense, onde mesmo vizinhos do prédio mal se falavam no trajeto do elevador. Essa rotina de amizade e confiança com toda a comunidade das ruas próximas, fazia Brusque parecer um Paraíso aqui na Terra.
FÉRIAS DE VERÃO
Antes de perceber a ausência da violência urbana, o primeiro choque cultural que o menino percebeu ao frequentar o Vale do Itajaí foi térmico. No verão tinha dias mais quentes e ensolarados do que ele conhecia em Curitiba, fazendo suar de verdade ao desfrutar das brincadeiras ao ar livre. Em todas as tardes, da metade até o entardecer, se reuniam as crianças da rua, em bandos. As meninas gostavam de brincar de Pega-Pega e os meninos jogavam taco ou futebol. Tudo isso no meio da rua, em frente das casas, sob o olhar protetor dos pais e avós, que se reuniam e ficavam proseando nas suas varandas.
As ruas principais que ligavam os bairros ao centro de Brusque já ostentavam um calçamento bem aprumado nessa época, mas as ruas transversais ainda eram de chão batido. Ainda bem, porque na estrada de chão é que aconteciam as melhores brincadeiras. Grande parte da população ainda utilizava a econômica e saudável bicicleta para os seus deslocamentos e por isso passavam poucos carros na rua para interferir nas brincadeiras.
As disputadas partidas de futebol possuíam chinelos de dedo na função de traves, ou qualquer calçado que estivesse a disposição, pois o futebol de estrada de chão era jogado descalço mesmo, rendendo inúmeros tampões do dedão arrancados, dedos mindinhos estraçalhados, joelhos esfolados e outras partes do corpo também danificadas. Na hora, com o corpo quente nem sentia os “pisados” (machucados) e seguia jogando a partida como se nada tivesse acontecido. Mas ao chegar em casa, na hora de tomar banho, quanto sofrimento!! Era um grande estudo criar a coragem necessária para colocar o machucado debaixo da água do chuveiro pra lavar a poeira da estrada e depois aplicar a dolorosa gotinha de merthiolate. Sempre lembrando de assoprar bem durante cada aplicada da impiedosa espátula umedecida com o assustador líquido vermelho de odor peculiar.
De repente algum menino da vizinhança aparecia com dois sarrafos de meio metro e uma bolinha de tênis. Pronto! Era tudo o que precisava pra organizar uma partida de taco. Em questão de segundos, alguém já tinha se dirigido à árvore mais próxima para retirar galhos secos pra fazer a “casinha”, o alvo a ser derrubado pela bolinha. Três ramos pequenos se apoiavam, sendo um em formato de forquilha para sustentar os outros dois. Riscava-se a área de cada “casinha” no chão, com o próprio sarrafo, num raio de um metro afastado de cada tripé de galhos e as demais regras já eram conhecidas por todos. Uma equipe arremessava a bolinha enquanto a outra rebatia com os tacos para defender a “casinha”. Somente a equipe que estava com os tacos (sarrafos) é que podia pontuar: o objetivo era rebater a bolinha pra bem longe e, enquanto o arremessador ia buscá-la, às vezes tendo que pular muros dos vizinhos, escapar de cachorro amarrado ou se embrenhar em algum matagal, os rebatedores trocavam de posição seguidas vezes, somando os seus pontos na partida. Quando a equipe que estava arremessando a bolinha conseguia derrubar a “casinha” que estava do outro lado da pista, esta dupla assumia os tacos, fazendo com que os garotos que antes rebatiam a bolinha passassem para a posição de arremessador.
Os carros que transitavam por ali já estavam acostumados com as competições infantis, reduzindo a velocidade e desviando gentilmente das “casinhas” para que a brincadeira pudesse seguir. E se algum motorista desavisado entrasse na rua sem reduzir a velocidade, paralisava o jogo e a turma ia pra beira da rua, ficando na maior torcida para que as rodas do veículo desviassem da casinha, e comemorando muito quando este desviava a tempo. Mas, se porventura os pneus do motorista distraído passassem em cima, esmagando a casinha, os meninos até resmungavam um pouco, mas no fundo nem se importavam, pois nos galhos das árvores da rua tinha uma fartura de novas casinhas. Casinha nova instalada e jogo que segue.
No final da tarde, com o sol mais ameno, as meninas apareciam debaixo de uma árvore e começava a brincadeira de pega-pega. Então chegava a hora de exibir uma boa forma física para as meninas ficarem impressionadas. E ele corria tanto que nenhuma vizinha conseguia o tocar, a não ser que o garoto paranaense desse uma diminuída proposital para ser alcançado, uma vez ou outra, para não desanimar as competidoras. Mas logo em seguida já dava um sprint e passava a função de “pegador” adiante, rapidinho. Esse sprint havia sido desenvolvido nas corridas para escapar de abordagens suspeitas nas ruas desertas de Curitiba. Pelo menos aqueles jovens malfeitores urbanos serviram como treinadores de atletismo.
Os avós gostavam de casa cheia. Todo domingo tinha o churrasco com espetinho feito pelo avô e no Natal nunca faltaram latões enormes, abarrotados de biscoitos caseiros feitos com muito amor e dedicação pela sua avó. Vinha Terno-de-Reis nas casas, com cantorias bonitas e um Papai Noel jogava balas para as crianças.
A brincadeira acabava, com os últimos raios solares. Escureceu, é hora de criança ir pra casa. E lá estava toda a família reunida para o jantar. Faltando chegar o neto que estava aproveitando cada minuto em liberdade para correr e brincar na estrada de chão batido. Todos se respeitavam e se tratavam bem. Não havia discussões sobre futebol, política e nem religião. Somente um falatório animado com muitas risadas e mistura de sotaques diferentes.
O menino paranaense nunca havia dado importância para essa questão de sotaques. Quem achava esta variação linguística curiosa eram os seus amigos de Curitiba, quando interagiam com algum parente catarinense visitante e percebiam em sua fala principalmente o som do “DI” e do “TI” (que em Curitiba era “DJI” e “TCHI”), e também do “S” que se parece com o carioca, tornando-se um X, além da forma de falar, um pouco cantada. O sotaque raiz do brusquense era quase um dialeto a parte para os amigos curitibanos.
O domingo à tarde tradicionalmente era na Prainha, no braço do Rio Itajaí-Mirim que passava perto do Santos Dumont. Era um ótimo lugar para comer as frutas que alguns meninos mais corajosos surrupiavam dos pomares alheios. Também ali se revelava todos os casos de namoro entre os jovens da vizinhança. Enfim, a Prainha era como um Balneário de água doce e se localizava em algumas curvas do Rio Itajaí-Mirim, o qual foi impiedosamente retificado a partir dos anos 1960, para reduzir o risco das terríveis enchentes, exterminando aos poucos todas as Prainhas que haviam por lá.
Muitas novidades se apresentavam diante dos olhos curiosos do menino, como a troca de bagaços por bistecas: um vizinho vinha de bicicleta pegar o latão de lavagem, com os restos de comida pra alimentar a criação de porcos dele. O trato era que, quando ele matasse o porco, daria uma porção da carne para o seu avô, o qual mantinha uma agricultura doméstica que gerava tanta fartura de verduras e legumes que ultrapassavam o necessário para o consumo próprio, possibilitando a doação pra muita gente, que recebia sempre como valiosos presentes. A única coisa que incomodava um pouco era ver tanto passarinho preso em gaiolas. Era uma verdadeira ostentação de passarinho cantando nas varandas brusquenses, porém, ao mesmo tempo o menino acreditava que ali naquelas grades, eles estariam protegidos dos estilingues de certas crianças que gostavam de treinar a pontaria em aves, preservando assim alguns exemplares de cada espécie. Estavam sendo bem tratados, apesar de privados da liberdade. O menino se incomodou um pouco com esse fato, mas foi porque ele viu a si próprio naquela gaiola, que representava o apartamento onde vivia a maior parte do ano. Em Brusque, ele era um passarinho livre.
CHEGANDO PRA FICAR
E foi na gloriosa tarde de 06 de dezembro de 1986, que houve a mudança em definitivo para Brusque. Com o falecimento do pai, a mãe decidiu vir pra perto dos avós e recomeçar a vida. Para o filho, era a realização de um sonho, pelo estilo de vida que existia em Brusque naquele tempo, ao qual ele já se identificava plenamente. A paz que reinava nesse lugar não tinha preço e as brincadeiras no meio da rua, eram algo impensável de se fazer no centro da capital paranaense.
Assim que o pequeno curitibano se tornou definitivamente um brusquense, já se enturmou com os meninos das ruas próximas e nos primeiros dias em solo catarinense já participava dos torneios de futebol descalço na estrada de chão batido, com traves feitas com sandálias hawaianas, gerando inevitavelmente inúmeras controvérsias se a bola que veio rolando entrou mesmo no gol ou só passou por cima do chinelo (naquele tempo ainda não existia o VAR). Também aconteceram partidas de taco memoráveis. E o interessante é que seja onde fosse a partida, sempre tinha uma vizinha que não devolvia a bolinha, tendo que ser evitadas as tacadas nesta direção. Assim ela permitia que a gente brincasse na rua e preservava as suas vidraças com a ausência de boladas naquela direção. As donas de casa que devolviam a bolinha, geralmente eram as que tinham os vidros da janela acidentalmente estilhaçados, às vezes.
O menino forasteiro introduziu sua turma brusquense no fabuloso mundo do vídeo-game “Atari”, causando grandes rivalidades no River Raid, Enduro, Megamania, Hero’s e Frostbitte, entre outros. Logo, todos os amigos também foram adquirindo seus video games Atari ou Dactar (uma versão compatível) gerando batalhas épicas. Em cada casa tinha os seus cartuchos com jogos exclusivos, que só eram jogados ali. Outra novidade trazida do Paraná na bagagem e apresentada para os novos amigos foi o seu glorioso campo de futebol de botão, acompanhado da coleção de times de botões coloridos com emblemas dos clubes de futebol mais tradicionais, que se tornou uma mania imediata. Em pouco tempo já foram organizados os primeiros campeonatos de botão, com direito a medalhas. A palheta cutucava a pontinha do botão. E agora? Encostou ou não encostou na bolinha? Após alguns questionamentos e a jogada seguia. Um anuncia que vai chutar “a gol”, e o outro imediatamente ajeita o seu goleiro na posição que feche melhor o ângulo. Quando ele solta a mão do goleiro, já está autorizando o seu adversário a realizar o chute. Foram muitas comemorações e outras tantas lamentações, pois para alguém poder ganhar, o outro precisa perder. O importante é aceitar e treinar mais para as próximas competições.
Outro choque cultural ocorrido com essa mudança, não só de cidade, como também de hábitos rotineiros, foi na mobilidade, com o uso constante da bicicleta. Em Curitiba, seria perigoso demais para um menino de 12 anos andar de “bike” pelas ruas extremamente movimentadas. Foi aprender a se equilibrar na bicicleta somente aos 11 anos, pegando emprestada sem pedir, a “Monark Barra Circular” azul-marinho, do seu vizinho que ficava encostada no play ground do prédio. Assim, de tentativa em tentativa, montando e descendo da bicicleta, em um trajeto circular pelo pequeno pátio onde ficava um balanço e uma gangorra, foi que em um dado momento, ele jogou o corpo de um lado para o outro, permanecendo sentado sobre o selim e a bicicleta seguiu a sua volta, completando a pedalada e começando outra, fazendo uma brisa massagear o seu rosto enquanto ia virando levemente o guidão, sentindo o doce gostinho de ter se tornado um ciclista de play ground.
Mas em Brusque ele pedalava o dia inteiro, de manhã até a noite, fortalecendo as pernas e se deslocando rapidamente entre as casas dos amigos e os inúmeros campinhos de futebol que haviam no bairro Santa Terezinha e Limoeiro, naquela época. Em pouco tempo já estava andando sem segurar o guidão. Logo em seguida, um amigo ensinou a empinar o pneu da frente. O pessoal competia para ver por “quantos postes” cada um conseguia pedalar empinando o pneu da frente. O garoto recém-chegado ficava só de espectador, pois no máximo conseguiria empinar por pouco mais de meio poste. Claro que também teve tombos memoráveis. A maioria das quedas foi engraçada e só uma que deu ruim, quando uma pancada no guidão gerou um hematoma na virilha que durou uns 15 dias.
Esse garoto paranaense que realizou o sonho de vir morar em Brusque fui eu. Resolvi compartilhar esta lembrança da minha infância neste conto, e poder refletir um pouco também sobre tudo isso.
A essa altura do campeonato tenho a certeza de estar no lugar certo e que nada que tenha ocorrido foi por acaso. Tudo o que nos acontece, seja de bom ou de ruim, possui um propósito específico. Particularmente, eu me sinto como uma semente que foi jogada no canteiro em Brusque e pude germinar, me aprimorando com as experiências vividas nesta cidade, e frutificar a família que tenho hoje, conforme o destino nos conduziu.
Vir à Brusque durante a infância gerou uma sensação de liberdade, confiança e tranquilidade. Liberdade para poder correr e brincar livremente do lado de fora de casa, enquanto na minha cidade natal, sair da porta do prédio pra calçada já representava um risco. Confiança em poder interagir com todas as pessoas, sendo bem recebido em todas as casas, gerando amizades instantâneas e duradouras, sendo que Curitiba possuía uma menor interação social entre desconhecidos. E tranquilidade, especialmente por não precisar me preocupar nem um pouco com a minha própria segurança, esquecendo completamente a hostilidade e a violência urbana, e experimentando o prazer em sentir-me em paz. Duas realidades que se apresentaram em minha infância, alternando-se na minha rotina como as estações do ano.
A impermanência da vida parecia querer me mostrar as duas faces de uma mesma moeda: as possibilidades que a existência terrena tem para oferecer: o medo e a confiança, o frio e o calor, a frieza e o afeto, o isolamento e o envolvimento coletivo. Tantas dualidades indo do oito ao oitenta, apresentando os seus extremos como se tudo ao nosso redor fosse uma grande escola, onde os acontecimentos que se sucedem são ensinamentos escritos com giz branco em uma lousa negra pendurada numa parede, bem à nossa frente. Basta prestar atenção e assimilar as lições que vão sendo apresentadas.
O bem mais precioso que possuímos com certeza são os aprendizados adquiridos das lições que a vida nos concede em cada fase das nossas vidas.



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